O que é a chuva ácida

NNos últimos anos, o Homem parece ter despertado para um dos grandes problemas ambientais, que o Ser Humano vem causando à natureza com repercussões nos diversos ecossistemas terrestres.
A chuva ácida, não representa um problema ambiental recente. Foi no século dezanove (ano de 1872) no âmbito da Revolução Industrial, que pela primeira vez, o cientista inglês Robert Argus Smith na sua obra intitulada “Air and rain: the beginnings of a Chemical Climatology”, fez referência à chuva ácida. O seu trabalho teve grande êxito, uma vez que o autor procurou estabelecer, pela primeira vez, uma relação entre o pH da chuva ácida e a combustão do carvão numa determinada área industrial.
No ano de 1982, o cientista Cowling fez referências aos trabalhos de Crowther e Ruston realizados no ano de 1911, que “relacionaram a acidez da chuva, com a combustão de carvão, demostrando que a chuva ácida inibia o crescimento e a germinação de plantas além de afectar a fixação de azoto no solo”. Este cientista no seu estudo mencionou também os trabalhos realizados em 1922, pelo biólogo norueguês Knut Dahl, em que este cientista reconhecia a relação existente entre a acidez da chuva e a morte dos peixes em vários lagos da Noruega. As suas observações revelaram que a acidez foi responsável pela morte de algas, plâncons e insectos. O que afectou a vida microscópica dos lagos, adquirindo as águas uma transparência anormal, isto é, as chuvas ácidas alteraram os ecossistemas naturais.
No extenso trabalho realizado por Cowling em 1982, sobre o fenómeno chuva ácida, encontram-se também a referência aos trabalhos de Bottinni, datados de 1939, tendo este cientista detectado a presença de ácido hidroclorídico na água da chuva, nas áreas próximas ao vulcão Vesúvio, responsável pela acidez da água.
Os trabalhos de pesquisa efectuados em 1964 pela UNESCO revelam que foram as bacias fluviais e lacustres a aparecerem como vítimas deste fenómeno, “pelo factor do subsolo dessas áreas, ser formado a partir de minerais, como, granitos e rochas com alto teor de quartzo e gnaisses, logo, não se desagrega com facilidade e praticamente não pode neutralizar o ácido que recebe das águas fluviais, o que o torna deste modo volúvel à acidez” (ENAMUEL, 1996).
A problemática da acidificação tem vindo a agravar-se nas últimas décadas, constituindo um problema de natureza ecológica em várias regiões onde se verifica um grande número de aglomerações urbanas e/ou centros industriais.
“Trata-se talvez do mais sério problema ecológico do século", suspeita o patologista americano Leon Dochinger, do Serviço de Florestas dos Estados Unidos.
O fenómeno de acidificação, designado por chuva ácida, esta associado à poluição que o homem produz na superfície terrestre, nomeadamente, a deposição de substâncias acidificantes nos solos e nas águas, que afectam gravemente um determinado número de espécies vegetais e espécies animais. As gotas de água das chuvas são uma combinação de água com peróxido de hidrogénio (H2O2) e ácidos sulfúrico (H2SO4), nítrico (HNO3), acético (CH3COOH) e fórmico (CHOOH) para, além do sulfato e nitrato de amónio ((NH4)2SO4, NH4NO3), sendo este tipo de precipitação mais ácida do que a normal, sendo o resultado da produção e emissão de gases, como, dióxido de enxofre (SO2) e óxido de azoto (NO, NO2, N2O5), provenientes da actividade industrial. Estes compostos são libertados na combustão de materiais de origem fóssil, como o petróleo e o carvão. A combustão destes materiais também origina os óxidos de carbono (CO e CO2), devido a existência de carbono em sua composição, bem como, na composição de outros materiais como o álcool comum (C2H5OH). Quando lançados, na baixa atmosfera estes poluentes, são transportados pelas correntes de ar através de milhares de quilómetros desde à sua fonte até serem depositados, sofrendo diversas reacções quando em contacto com a água. Estes poluentes podem precipitar-se sob a forma chuva “húmida”, como a geada, a neblina e a neve, mas também pode ocorrer a precipitação sob a forma “seca”, nomeadamente, a deposição de matéria particulada.
Quando o ar atmosférico está desprovido de poluentes, o único ácido que influência o valor do pH das chuvas é o ácido carbónico. Este ácido, quando dissolvido na água pura, mantém o pH da água ligeiramente ácido, com valores aproximadamente de 5,65. Do ponto de vista químico, a chuva ácida apresenta um pH inferior a 5,65; os casos mais graves observados indicaram chuvas com pH de 2,5.
A longo prazo, os seus efeitos constituem um importante indicador das condições de degradação do meio ambiente, as quais estão relacionadas com à qualidade do ar sobre as zonas fortemente urbanizadas.
Não sendo possível ao Homem controlar a quantidade de poluentes que é lançada para o meio ambiente a cada hora em todo o mundo, nem fazer uma estimativa dos danos provocados pela poluição nos diversos sistemas ecológicos do planeta. Consequentemente, não existe um estudo estatístico sobre este problema, uma vez que a quantidade de poluentes não é mensurável. Vamos apresentar alguns exemplos concretos do como a negligência humana e o desrespeito pela natureza acarretam em diversos ecossistemas ecológicos (tab.2).

¡ De todos os poluentes químicos lançados para o ar por várias industrias (Fig. 5), encontram-se o dióxido de enxofre e o óxido de azoto. Estas substâncias, em contacto com o vapor de água e o oxigénio do ar transformam-se em ácido sulfúirco e ácido nítrico, que por sua vez se impregnam na neblina, na geada, na neve e nas águas da chuva, que se transformam nas chamadas chuvas ácidas “húmidas”. Que ao caírem na superfície, vão alterar a composição química do solo, do subsolo, das águas superficiais e submersas, atingindo as cadeias alimentares, destruindo florestas e campos de cultivo, atacando os monumentos, as estruturas metálicas e os edifícios. Segundo o Fundo Mundial para a Natureza, cerca de 35% dos ecossistemas europeus estão seriamente afectados e aproximadamente 50% das florestas da Alemanha e da Holanda foram destruídas pela acidez da chuva.



Figura 5: Libertação de poluentes químicos para atmosfera.

¡ Os poluentes atmosféricos transportados pelos ventos, podendo percorrer até centenas de quilómetros de distância dos seus locais de origem (Fig.6). Por exemplo, as correntes de ar que se deslocam do oceano para o continente transportam a maior parte dos 5 milhões de toneladas anuais de dióxido de enxofre expelidas pelas centrais eléctricas movidas a carvão da Inglaterra. Quando atinge o sul da Noruega e o sudoeste de Suécia, esta mistura poluída precipita sob a forma de chuva ácida. Calcula-se que em algumas regiões da Suécia a quantidade de ácido sulfúrico seja de 2 gramas por metro quadrado de área superficial.

Figura 6. Transporte de poluentes atmosféricos.

¡ Um outro caso passa-se no Brasil, em que na termoeléctrica de Candiota, em Bage, por queimar carvão de má qualidade, acidifica as chuvas que caem no Uruguai.

¡ As medidas anti-poluentes adoptadas na década de 70 contribuíram para o “mercado de exportação” das chuvas ácidas. Foi o que ocorreu no Parque Nacional de Aidrondack, uma enorme área verde dos Estados Unidos da América, com montanhas e lagos, protegidos por uma rigorosa legislação de defesa do meio ambiente. Ninguém imaginária que nesse paraíso terrestre houvesse qualquer sinal de poluição. No entanto, em 1976 verificou-se que os peixes da maioria dos lagos do parque haviam desaparecido, a causa deste desastre ambiental estava a mais de 800 quilómetros de distância, no complexo siderúrgico de Sudbury, em Ontario, no Canadá. Para impedir que a poluição prejudicasse as áreas vizinhas, de Sudbury as chaminés, deste complexo industrial têm 400 metros de altura. Lançando assim, para as camadas mais altas da atmosfera, os gases venenosos, que são levados pelos ventos que sopram para leste encontrando a barreira dos Montes Apalaches, ocorrendo a precipitação da chuva ácida em pleno parque. Estudos efectuados mencionam que o Canadá recebe dos Estados Unidos da América quatro vezes mais dióxido de enxofre e onze vezes mais óxido de azoto do que envia para esse país. Fotografias das Cariátides (Fig.7), as ninfas sobre as quais se apoia o templo de Erekteion, na Acrópole, mostram que, num período de dez anos (1955 a 1965), a chuva ácida destruiu os narizes das Cariátides e outros detalhes de suas figuras.



Figura 7. Templo de Erekteion, Grécia.

O mesmo fenómeno é observado no Taj Mahal (Fig.8) na Índia, e no Coliseu em Roma (Fig.9).

Países Problemas registrados
China Próximo a Chongging, a chuva ácida causou danos ás plantações de arroz, em Guiyang as chuvas têm pH inferior a 4.
Japão Em Tóquio, certos problemas de saúde são atribuídos ao ar extremamente poluído.
Alemanha As chuvas ácidas causaram estragos em mais da metade das suas florestas.
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Canadá Além de danos sobre a vegetação, a água de 300 lagos na região de Ontaro têm pH inferior a 5.
Estados Unidos Extensos danos sofrem as florestas e Coníferas e nos Montes Apalaches. Cerca de 10% dos lagos da Região das Montanhas Adirondak têm pH inferior a 5.
Brasil As cidades de São Paulo e Rio de Janeiro registram chuvas com pH inferior a 5.
Suíça Na região dos Alpes Centrais, cerca de 50% das Coníferas estão mortas ou danificadas.
Reino Unido A chuva ácida causou estragos em 67% das florestas.
Noruega Na região Sul deste país, cerca de 80% dos lagos estão biologicamente mortos ou extremamente ameaçados.
Suécia Estão acidificados 20mil lagos, onde cerca de 4mil deles não têm peixes.
Polónia A chuva ácida provocou um grande efeito corrosivo sobre as dormentes de suas ferrovias.
República Sul Africana A chuva ácida provocou danos nos edifícios históricos.
Índia
A poluição industrial danifica edifícios em Bombaim e o Palácio de Taj Mahal um dos mais importantes monumentos hindus.

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Fonte: “The Global Ecology Handbook” (1990)

Tabela 2. Ocorrência de chuvas ácidas no plano Mundial.

Algumas atitudes têm sido tomadas contra essa terrível modalidade de poluição. Em março de 1984, reunidos em Madrid, os representantes de nove países europeus e do Canadá acertaram reduzir em 30%, na próxima década, suas emissões de enxofre. Não será tarefa suave, dado o elevado custo dos equipamentos para combater a chuva ácida. Na França, por exemplo, onde já são obrigatórios, estes dispositivos representam 10% do custo global das fabricas termoeléctricas, onde estão instalados. Para financiá-los, quase sempre é indispensável aumentar as tarifas de energia - um risco político que os governantes relutam em assumir. Alguns casos, porém, comportam soluções mais baratas. Foi algo assim que fez o governo da Grécia, em Janeiro passado: a área do centro de Atenas, onde os carros só podem circular em dias alternados, foi ampliada de 8 para 67 km2, numa tentativa de dissolver a nuvem negra que corrói implacavelmente os dois milénios e meio de história.
As questões de natureza política estão individualmente ligadas às questões ambientais e, particularmente, à problemática das chuvas ácidas. Algumas melhorias, com efeito, tão tardamente não tanto, porque dúvidas de natureza científica permanecem na identificação e resolução do problema mas, tão só, por falta de vontade política de alguns estados...